TRÊS PONTOS DE TENSÕES PARA CONCILIAR O TRABALHO PASTORAl E A VIDA ACADÊMICA


            
          Desde que comecei o meu mestrado em ciências da religião,  ainda pastoreando uma comunidade, conciliar o papel de pastor e acadêmico foi um dos grandes dilemas enfrentados, e que ainda enfrento na reta final do curso.    Em meio aos dilemas, certezas e incertezas produzidas pela reflexão em torno do tema, por esses dias me deparei com um texto de Andrew Wilson, publicado na ChristianityToday (http://www.christianitytoday.com/ct/2015/september-web-only/why-being-pastor-scholar-is-nearly-impossible.html?share=OYeKw55FSv7ATZ7G82ytxgQN%2FyjvIjmX) , que me caiu como uma luva, portanto, resolvi fazer uma livre adaptação do mesmo.

            Mas como é possível ser ao mesmo tempo um acadêmico e um pastor? Eu suspeito que muitos de nós conhecemos pessoas que, pretendem ser pastor, bem como, um erudito. E, portanto, acabaram não sendo nem e nem outro. Mais comumente, alguns aspirem ser ambos igualmente, mas indicam em seus discursos e ações-e que seus horários semanais não dão para conciliar as duas atividades.
            Não me interpretem mal. Eu não estou tentando menosprezar a chamada para os pastores que também são estudiosos e acadêmicos, e que também são pastores. Mas ser um pastor-erudito é mais fácil fala do que viver. E muitos, como eu, que estão tentando combinar seus desafios pastorais e acadêmicos vivem em uma tensão permanente.
          A tensão gira essencialmente em torno da uma questão de tempo. A pesquisa acadêmica demanda muito tempo, bem como, também, o ministério pastoral. Logo, fazer as duas coisas bem feitas, não está ao alcance de  todos. Obviamente, há exceções, Wright é um indivíduo super produtivo, que, nas últimas três décadas, conseguiu publicar comentários populares e livros; e  ainda escrever monografias acadêmicas. Conciliando com vários níveis de atividades eclesiásticas, servindo inclusive, como bispo de Durham por sete anos, e ainda encontra tempo para viajar pelo mundo para ensinar.
             Agora, tendo avaliado o assunto, da bi-vocação, mais profundamente,  vejo três grandes tensões que fazem o pastor-erudito algo como um unicórnio.

1)    A tensão entre ser: Especialista-Generalista
            A pesquisa acadêmica requer domínio sobre áreas de investigação, de uma forma que ampliem o conhecimento humano. Ela exige disciplina para restringir não só o que você ler sobre, mas também o que você falar. Estudiosos paulinos muitas vezes dão uma tosse de desculpas antes de opinar sobre Jesus, ou em pontos de vista filosóficos como nominalismo. Se você perguntar a um estudioso sobre a sua opinião sobre um assunto específico, e eles não são totalmente seguros, eles provavelmente vão expressar alguma versão do velho mantra: "Não é minha área”. Acadêmicos são especialistas.
            Por outro lado, o pastor é um generalista e não tem o luxo de se especializar. As pessoas querem que os pastores  tenham respostas para todas as demanda: divórcio, o estado de Israel, dons espirituais, etc, contudo, eles não podem se dar o luxo de afirmar essa não é minha área. 
            Portanto o pastor-acadêmico enfrenta um conflito interno significativo. Quando um novo problema surge e perturba as pessoas na igreja, pastores e estudiosos querem estudá-lo brevemente, orar por sabedoria, e, em seguida, falar com confiança, sob o risco de não ser muito erudito? Ou será que eles esperam até que eles têm dominado o assunto e escreveu um artigo sobre o tema, o que significa esperar seis meses, sob o risco de não ser muito pastoral? Eis ai um dilema real que enfrentam os pastores que querem conciliar a profundidade da academia com a opinião superficial requerida pelo rebanho.

2)A tensão:  teoria - prática
           Alguns estudiosos, pelo menos nos círculos teológicos, são motivados pela questão: "O que devemos fazer?" A pesquisa gera indagações, que geram mais pesquisas.
            Pastores, por outro lado, são motivados por questões práticas. Como edificar a vida do rebanho? Quais são as formas mais eficazes de fazer discípulos? Como podemos alcançar nossas comunidades com o evangelho? Estas destas perguntas requerem soluções teóricas em algum sentido, e separar a prática do teórico é inútil e muitas vezes contraproducentes. Mas o impulso vem do resultado tangível no mundo real.

3)A tensão: Academia-Igreja

            É difícil exagerar como contexto intensifica essas tensões. Não é simplesmente uma questão de recursos, a disponibilidade dos quais são totalmente diferentes quando você trabalha em um seminário em vez de em uma igreja. As atividades centram-se na educação de um seleto grupo de estudantes que são geralmente jovens, intelectualmente capazes, e interessados no assunto.
               Compare isso com um ambiente de igreja, onde o pastor interage com um grupo de indivíduos, alguns dos quais têm pouco interesse no que o mesmo está tentando ensiná-los intelectualmente.

        As tensões, no entanto, não são necessariamente más. Nós precisamos simplesmente aprender a gerenciá-las. Assim, pode ser que as tensões do pastor-erudito, bem como, todos os desafios pessoais que elas representam, podem ser boas para a igreja. Afinal de contas, Paulo lidou com eles, e ele não fez um trabalho tão ruim.



NÃO TRANSFORME DEUS EM UM ÍDOLO



Nestes últimos dias estava conversando como meus alunos de apologética, e falando o quanto é perigoso quando nos aproximamos de Deus pela via do mero racionalismo, ou mesmo pelas raias da emoção, obviamente quando destituídos (tanto o racionalismo como a emoção) da revelação especial de Deus; pois, quase sempre, e porque não dizer sempre, formatamos Deus segundo os nossos anseios, perspectivas e principalmente preconceitos, e o tornamos em um ídolo segundo as nossas próprias idiossincrasias. O interessante é que tenho visto isso na espiritualidade moderna, por isso gostaria de compartilhar algumas dessas observações, citando alguns exemplos.
O deus objeto: é aquela relação com deus baseada simplesmente naquilo que ele pode oferecer, é quando a benção descreve praticamente todos os seus atributos, a Bíblia traz um exemplo desse tipo de relação: quando o povo de Israel sai do Egito e constrói um bezerro de ouro (Exôdo 32). Na ocasião eles atribuíram à imagem os atos libertadores de Deus: “Ó Israel, este é o deus que te tirou do Egito!”. É muito comum na contemporaneidade a idéia de um deus utilitário, ou seja, aquele que serve simplesmente para os propósitos do homem, não importando os seus atributos, seu senhorio, e principalmente sua soberania; pensando bem, para que eu vou ter um Deus que manda em mim, se eu posso mandar nele; ou, de que serve servir a Deus se ele é que me serve.
O deus espectador: é quando se estabelece uma relação com Deus baseado em programas litúrgicos, nesta lógica, o caminhar com Deus se torna um mero entretenimento, quanto mais: luz, holofotes, músicas, show e bandas; acredita-se que Deus está interessando em um padrão estético, mas, na verdade o que está por traz como mote, é própria vaidade do homem, que formata uma estética meramente antropocêntrica. É com se Deus tivesse que comprar ingresso para as apresentações, congressos, ou seja, Ele não é o centro, o centro é o homem, é a banda, é o cantor, é o pregador. Pois pensando bem, para que serve adoração em Espírito e em verdade, se não der para se divertir e produzir sensações.
O deus estranho: é quando se estabelece uma relação com Deus, baseada simplesmente no espírito da religiosidade, é aquele tipo de gente que está na igreja, se batiza, e até mesmo, participa dos programas, contudo conduz a sua vida como se Deus não existisse, sua vontade soberana não tem num valor, sua Palavra não serve para guiar. É aquela lógica: Deus tu és Senhor da minha vida, só não se meta nela.
Esses são só alguns exemplos, para mostrar que a nossa relação com Deus não pode ser baseada naquilo que penso e acho, pois a única forma segura de conhecer a Deus é por aquilo que mesmo se revelou, em especial, a sua Palavra; infelizmente muitos tornam os atributos divinos em meros sentimentos e impressões. A idolatria também se manifesta quando transformamos Deus em um deus segundo os meus meros anseios, em um objeto controlado por minha vontade, o quando dizemos que o servimos, mas vivemos e conduzimos a nossa vida como Ele não existisse.

Pr. Jonas Silva




  





A CAUSA GAY E A ALIENAÇÃO DA IGREJA BRASILEIRA



         A causa gay vem sendo um dos temas mais recorrentes no seio da Igreja Evangélica Brasileira atualmente. Reconheço a importância da causa, a manipulação política que envolve da questão, o desrespeito a uma parcela da sociedade (Evangélicos e Católicos), a qual os ativistas gays desejam calar, bem como, a manipulação midiática que vem sendo implementada por alguns canais de televisão e pela imprensa, tentando conduzir a opinião pública a uma leitura irreflexiva da questão.
         Contudo, o meu compromisso não é com a causa gay, e sim com o Evangelho e com a Igreja do Senhor Jesus Cristo, e aí é exatamente onde passo a me preocupar, diante das seguintes questões: Qual a postura política da Igreja Evangélica Brasileira antes do debate sobre a homofobia? Quais foram as suas demandas éticas? Quais foram seus posicionamentos ante a opinião pública a cerca de outras questões afrontadoras ao Evangelho? A exemplo da corrupção e da injustiça social.
         Reconheço que o debate acerca da homofobia é relevante para a Igreja hoje, contudo, não é o único e nem o mais importante. Pois diante do chamado imperativo de Jesus para a igreja fazer discípulos, entendo que ela é questão contingencial.
         A história insiste em mostrar que quando se quer manipular cegamente um grupo de pessoas, dê-lhe uma causa, faça-a relevante, estabeleça o inimigo, dé-lhe arautos e mártires.
         Os caras pintadas no processo de impeachment do ex presidente Collor é um exemplo palpável: uma massa de jovens desprovidos de qualquer reflexão a cerca da questão, mas gritava slogans e palavras de ordens, forjadas por quem queria tirar vantagem da situação.
         Percebo que a falta de sabedoria e parcimônia de setores da Igreja Evangélica Brasileira acerca da questão vem, prestando um serviço a causa gay, pois os ativistas gays polarizaram o debate no seio da sociedade, alegando a discriminação por parte da igreja.
         Compreendo que há muita confusão nos posicionamentos firmados pelos extremistas dos dois lados, percebo também, que apoiar a causa gay e casamento gay, como vem fazendo alguns irmãos nas redes sociais, é atentar contra a cosmovisão cristã, já que a antropologia emerge da revelação bíblica, não abre espaço para outro tipo de estrutura familiar que não seja aquela constituída basicamente entre um homem e uma mulher, qualquer coisa fora disso, é fruto de uma perspectiva caída e pecaminosa.
         Contudo, faço lembrar que a estrutura familiar não é a essência do Evangelho, sendo inclusiva uma mera contingência, o cerne da mensagem revelada é a transformação do homem, e a partir desta transformação, todas as estruturas morais e sociais são adequadas ao plano divino revelacional. Portando, ter uma sociedade heterossexual não é indicativo de que o Reino de Deus está sendo manifesto entre os homens.
         Ressalto, portanto, que o equilíbrio, e enxergar o que motiva os pólos estabelecidos, é fundamental neste momento; temos que compreender o que é essencial e fundamental no Cristianismo, para não perdermos de vista qual a real função da igreja, que está muito além de impor regras, mas, pregar o Evangelho para que vidas sejam transformadas, e aí sim, os valores sejam adequados ao padrão divino.  O que passa disso é mero fundamentalismo religioso, que vem motivando relações sociais totalitárias e cerceadoras de direitos e garantias.
        

Pr. Jonas Silva

A POLÍTICA ECLESIÁSTICA E O AGIR ÉTICO


Palavras do Senhor na boca do Profeta Oséias( Cap 4:1-6)
“1 Ouvi a palavra do Senhor, vós, filhos de Israel, porque o Senhor tem uma contenda com os habitantes da terra, porque nela não há verdade, nem amor, nem conhecimento de Deus. 2 O que só prevalece é perjurar, mentir, matar, furtar e adulterar, e há arrombamentos e homicídios sobre homicídios. 3 Por isso, a terra está de luto, e todo o que mora nela desfalece, com os animais do campo e com as aves do céu; e até os peixes do mar perecem.4 Todavia, ninguém contenda, ninguém repreenda; porque o teu povo é como os sacerdotes aos quais acusa. 5 Por isso, tropeçarás de dia, e o profeta contigo tropeçará de noite; e destruirei a tua mãe. 6 O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.”


            Gostaria de inicial este “post “ a partir das palavras proferidas pelo Profeta Oséias, que denuncia especificamente a manifestação da injustiça no meio da nação de Israel, com a conivência dos profetas e sacerdotes. Ou seja, o povo que deveria expressar a justiça do altíssimo, juntamente com sua liderança, estava corrompido.
            Sem qualquer risco de cometer anacronismos, compreendo a questão denunciada pelo profeta como bastante atual, pois vejo que a igreja de nossa geração esqueceu que o chamado ao Evangelho é um chamado a viver uma vida justa e que, obviamente, expressa justiça (“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” Mateus 5:6).
            Não consigo compreender uma vida cristã que não manifesta em seu agir cotidiano uma ação ética segundo os padrões revelacionais materializados nas Escrituras Sagradas. Bem como, que não fica indignada com a cultura de injustiça que se estabeleceu em nossa  sociedade, e também no seio da igreja, especialmente nas políticas denominacionais.
            É de estarrecer quando constatamos que a igreja que deveria ser a própria expressão da justiça divina, passa a ser gerida por sua liderança com os mesmos padrões mundanos, caídos e pecaminosos que norteiam a política secular.
Na perspectiva que acabamos de falar, os acordos políticos para escolha de líderes eclesiásticos, muitas vezes não visam o melhor para a obra de Deus, mas exclusivamente a manutenção do status quo de lideranças que há muito tempo deixaram de temer a Deus, e que servem a seu próprio ventre e a sua sórdida sede de poder.  Homens: amantes das riquezas, mentirosos, violentos, caluniadores, bajuladores.
Nesta lógica, a justiça é pervertida, os regulamentos disciplinares só servem para aqueles que não estão inseridos neste sistema caído que se propõe a gerir a coisas de Deus, são instrumentos de opressão, armas para matar reputações e destruir ministérios que por ventura busquem a justiça e o certo. São inversões de valores, dossiês, acusações, posturas violentas, verdadeiras ações oriundas de um sistema caído.
Temo amigo leitor, que ao ler as minhas palavras, talvez você se arrisque simplesmente a querer dar nomes aos bois, mas esta não é minha intenção, e sim colocar você frente ao sistema que acabamos de descrever e desafiá-lo a se indignar, e tomar uma posição frente ao que você sabe bem melhor do que eu, seja um agente de mudança, não se cale ante as injustiças, se você tem voz e voto dentro da sua estrutura de liderança; enxergue e ouça para além dos discursos e seja uma voz profética de mudança.

Pr. Jonas Silva


           
           


A GRAÇA PREVENIENTE NA TEOLOGIA ARMINIANA E WESLEYANA

 

Diversas denominações evangélicas no Brasil não são adeptas da teologia reformada calvinista no que diz respeito ao entendimento da doutrina da salvação. A soteriologia de tais denominações reproduz ou se aproxima da teologia arminiana clássica e da teologia wesleyana.

O calvinismo é a tradição teológica da qual o reformador protestante João Calvino (1509-1564) é o proponente mais famoso.[1] Já o arminianismo clássico é oriundo do movimento de oposição à perspectiva de salvação dos reformados calvinistas, que foi iniciado pelo teólogo e pastor Holandês Jacó Armínio (1569-1609).[2]

A tradição reformada calvinista e a tradição reformada arminiana clássica possuem diversos pontos em comum no campo teológico, mas divergem consideravelmente acerca da doutrina da salvação, chegando nesse aspecto ao nível da incompatibilidade. Neste artigo daremos ênfase nas diferentes perspectivas de como a graça de Deus age sobre a vida do perdido pecador.

Arminianos clássicos e calvinistas concordam no fato de que o pecado afetou todos os aspectos da personalidade humana, inclinando-nos à rebelião e ao mal, tornando-nos completamente indispostos a nos submeter a Deus à Sua boa, perfeita e agradável vontade. Estamos mortos em nossos delitos e pecados (Ef 2.1). Trata-se aqui da depravação total do homem caído.

As diferenças entre os arminianos clássicos e wesleyanos, dos pensadores calvinistas, surgem no entendimento de como Deus trata com os pecadores nessa condição. Do ponto de vista arminiano clássico:

[...] Deus estende graça suficiente para todas as pessoas através do Espírito Santo, para opor-se à influência do pecado e capacitar uma resposta positiva a Deus (Jo 15.26-27; 16.7-11). A iniciativa aqui é inteiramente da parte de Deus; o papel do pecador é simplesmente responder em fé e grata obediência (Lc 15; Rm 5.6-8; Ef 2.4-5; Fp 2.12-13). Todavia, os pecadores podem resistir à iniciativa de Deus, e persistir no pecado e rebelião. Em outras palavras, a graça de Deus capacita e encoraja uma resposta positiva e salvífica para todas as pessoas, mas ela não determina uma resposta salvífica para ninguém (At 7.51). Além disso, uma resposta positiva inicial de fé e obediência não garante a salvação final de alguém. É possível iniciar um relacionamento genuíno com Deus, mas então, posteriormente, se afastar Dele, e persistir no mal de sorte que a pessoa, por fim, se perca (Rm 8.12-13; 11.19-22; Gl 5.21; 6.7-10; Hb 6.1-8; Ap 2.2-7).[3]

Passaremos a observa como Armínio e Wesley lidaram com a graça preveniente.

A GRAÇA PREVENIENTE NA TEOLOGIA DE ARMÍNIO

O posicionamento de Armínio sobre a graça preveniente foi registrado em sua Declaração de Sentimentos:

Eu atribuo à graça o começo, a continuidade e a consumação de todo bem, e a tal ponto eu estendo sua influência, que um homem, embora regenerado, de forma nenhuma pode conceber, desejar, nem fazer qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação do mal, sem esta graça preveniente e estimulante, seguinte e cooperante. Desta declaração claramente parecerá que, de maneira nenhuma, eu faço injustiça à graça, atribuindo, como é dito de mim, demais ao livre-arbítrio do homem. Pois toda a controvérsia se reduz à solução desta questão, “a graça de Deus é uma certa força irresistível”? Isto é, a controvérsia não diz respeito àquelas ações ou operações que possam ser atribuídas à graça, (pois eu reconheço e ensino muitas destas ações ou operações quanto qualquer um) mas ela diz respeito unicamente ao modo de operação, se ela é irresistível ou não. Em se tratando dessa questão, creio, de acordo com as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que é oferecida.[4]

Para Armínio, a salvação pessoal é um ato da iniciativa da graça de Deus, mas que não é irresistível.

Após a morte de Armínio, quarenta e seis ministros holandeses elaboraram um documento chamado de “Remonstrância” (protesto), onde reafirmaram os conceitos de Armínio. Em seu Artigo III, enfatizando a depravação total do homem afirma:

Que o homem não possui por si mesmo graça salvadora, nem as obras de sua própria vontade, de modo que, em seu estado de apostasia e pecado para si mesmo e por si mesmo, não pode pensar nada que seja bom – nada, a saber, que seja verdadeiramente bom, tal como a fé que salva antes de qualquer outra coisa. Mas que é necessário que, por Deus em Cristo e através de seu Santo Espírito, seja gerado de novo e renovado em entendimento, afeições e vontade e em todas as suas faculdades, para que seja capacitado a entender, pensar, querer e praticar o que é verdadeiramente bom, segundo a Palavra de Deus [Jo 15.5].[5]

Sobre a possibilidade da graça preveniente ser resistida, foi escrito no Artigo IV do mesmo documento que:

Que esta graça de Deus é o começo, a continuação e o fim de todo o bem; de modo que nem mesmo o homem regenerado pode pensar, querer ou praticar qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação para o mal sem a graça precedente (ou preveniente) que desperta, assiste e coopera. De modo que todas as obras boas e todos os movimentos para o bem, que podem ser concebidos em pensamento, devem ser atribuídos à graça de Deus em Cristo. Mas, quanto ao modo de operação, a graça não é irresistível, porque está escrito de muitos que eles resistiram ao Espírito Santo.[6]

O pensamento de Armínio reverberou ao longo dos anos encontrando guarida em diversos arcabouços teológicos.

A GRAÇA PREVENIENTE NA TEOLOGIA DE WESLEY

John Wesley (1703-1791), o grande teólogo e pregador inglês, pai do metodismo, movimento que influenciou o surgimento do pentecostalismo clássico, entendia a salvação do homem nos moldes do arminianismo clássico:

A graça opera diante de nós para nos atrair em direção à fé, para iniciar sua obra em nós. Até mesmo a primeira e frágil intuição da convicção do pecado, a primeira insinuação de nossa necessidade de Deus, é a obra da graça preparadora e antecedente à beira do nosso desejo, trazendo-nos em tempo de afligirmo-nos sobre nossas próprias injustiças, desafiando nossas disposições perversas, de modo que nossas vontades distorcidas gradualmente cessam de resistir ao dom de Deus.[7]

Sobre o estado de depravação humana Wesley comenta:

O homem, por natureza, é repleto de todo o tipo de maldade? É vazio de todo o bem? É totalmente caído? Sua alma está totalmente corrompida? Ou, para fazer o teste ao contrário, “toda imaginação dos pensamentos de seu coração [é] só má continuamente”? Admita isso, e até aqui você é um cristão. Negue isso, e você ainda é um pagão.[8]

Em seu sermão “O caminho para o Reino”, diz: Você é corrompido em cada poder, em cada faculdade de sua alma, por ser corrompido em cada um desses aspectos, toda fundação do seu ser está fora de curso.[9] Em outro sermão intitulado “A Falsidade do Coração Humano” enfatiza que: “No coração de todo filho de homem há um fundo inexaurível de maldade e injustiça, enraizado de forma tão profunda e firme na alma que nada, a não ser a graça toda-poderosa, pode curar isso.[10]

Diversos estudiosos da teologia de John Wesley reafirmaram o seu pensamento soteriológico arminiano clássico:

Em termos de contribuições mais modernas, George Croft Cell, no início do século XX, sustentou que Wesley, na verdade, “planta seus pés igualmente nas pegadas deixadas por Paulo, Agostinho, Lutero e Calvino”. Willian Cannon, fazendo uma declaração semelhante, afirma que Wesley, o teólogo arminianista, “percorre todo o caminho com Calvino, com Lutero e com Agostinho em sua insistência de que o homem é, por natureza, totalmente destituído de justiça e está sujeito ao julgamento e à ira de Deus” [...].[11]

As conclusões que se podem obter, conforme Richard Taylor, é que:

Jacó Armínio e John Wesley eram totalmente agostinianos nos seguintes aspectos: (a) a raça humana é universalmente depravada como resultado do pecado de Adão; (b) a capacidade do homem de querer o bem está tão debilitada que requer a ação da graça divina para que possa alterar seu curso e ser salvo.[12]

No que diz respeito ao entendimento sobre a operação da graça na vida do homem perdido e morto em seus delitos e pecados, assim como Armínio, Wesley diverge de Agostinho e dos reformistas do século XVI, defendendo que a graça preveniente, fundamentada na obra salvífica de Jesus Cristo, opera na restauração do livre-arbítrio, de maneira sobrenatural, pelo Espírito Santo, em todas as pessoas; as quais, à parte dessa restauração, do ponto de vista soteriológico, não são livres. Dessa forma, Wesley se afasta tanto do semipelagianismo católico romano que nega a total depravação humana, quanto do determinismo de Wittenberg e Genebra que elimina a responsabilidade moral do homem na aceitação ou na rejeição da oferta de salvação mediante a graça preveniente.[13]

Sobre a ideia de graça irresistível, Wesley não defende tal realidade no que se refere aos aspectos do chamado ou oferta para a salvação, mas ao restabelecimento das faculdades humanas que estabelecem o equilíbrio e responsabilidade individuais:

Mais uma vez, a graça preveniente não é irresistível no sentido de que a personalidade é aniquilada nem de que já existe um “eu” responsável viável que apenas é suprido com as faculdades. Antes, essa graça é necessária, na verdade, é imprescindível no melhor sentido do termo “antecedência” a fim de produzir no ser um “eu” responsável, em parte, precisamente pela restauração das faculdades. Simplificando, o princípio do processo da salvação não requer a graça cooperante (a essa altura, uma impossibilidade total), mas a graça livre, a atividade apenas de Deus.[14]

CONCLUSÃO

Torna-se assim evidente, que a doutrina da graça preveniente de Armínio e Wesley concorda com a concepção de depravação total e salvação somente pela graça, conforme Lutero e Calvino, mas discorda no sentido de que Deus predestinou poucos homens para a salvação, deixando a maior parte da humanidade na condenação do inferno eterno, de que a graça salvadora é irresistível, e que é direcionada apenas aos eleitos:

A eleição de Deus é um ato incondicional da graça livre, dada por meio de seu filho Jesus, antes de o mundo existir. Por meio deste ato, Deus escolheu, antes da fundação do mundo, aqueles que seriam libertos da escravidão ao pecado e levados ao arrependimento e à fé salvadora em Jesus.[15]

Sobre a ideia da graça irresistível na teologia reformada calvinista, lemos:

Isto significa que a resistência que todos os seres humanos exercem cada dia contra Deus (Rm 3.10-12, At 7.51) é vencida maravilhosamente, no tempo próprio, pela graça salvadora de Deus, em favor de rebeldes indignos, os quais ele escolhe salvar espontaneamente. [16]

Na perspectiva calvinista, para tornar a graça irresistível, Deus age mudando a nossa vontade, sem necessariamente agir contra a nossa vontade.[17] Com certeza, um argumento insustentável à luz da doutrina bíblica da salvação, e da responsabilidade moral do homem enquanto um ser livre.

O conhecido apelo evangelístico que diz “dê um passo para Deus que Ele dará dois em sua direção”, não se sustenta à luz do arminianismo clássico e do pensamente wesleyano. Tal apelo é norteado pelo arminianismo de cabeça[18] e arminianismo contemporâneo[19], que são essencialmente semipelagianos, e que acreditam que o homem não se encontra no estado de depravação total, podendo de alguma maneira tomar a iniciativa de buscar a Deus e de conseguir a sua salvação pessoal.

É também infundada e falsa a acusação calvinista de que o arminianismo clássico defende a ideia de que o homem após a queda não se tornou totalmente depravado, de que pode escolher o bem espiritual, e de exercer fé em Deus de maneira a receber o evangelho e assim tomar posse da salvação para si mesmo.[20]

Toda salvação pessoal é resultado da iniciativa graciosa de Deus, que abre o entendimento humano para a verdade do Evangelho, e que afrouxa as rédeas do poder do pecado. Somente a operação da graça preveniente torna o homem capaz de crer e aceitar o dom gratuito de Deus, que é a vida eterna em Cristo Jesus (Ef 2.1-10), ou de livremente rejeitá-lo, tornando-se assim moralmente responsável por tais decisões.

Altair Germano – Pastor, teólogo, pedagogo, escritor e conferencista. Atualmente é o 1º Vice-Presidente da Assembleia de Deus em Abreu e Lima-PE (COMADALPE), Vice-Presidente do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil – CGADB.



O texto acima é de autoria do Pr. Altair Germano, publicado inicialmente em http://www.altairgermano.net/

[1] WALLS, Jerry; DONGELL. Por que não sou calvinista. São Paulo: Editora Reflexão, 2014, p. 12.
[2] OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p.
[3] WALLS, Jerry L.; DONGEL, Joseph R. Ibid., p. 14.
[4] ARMINIUS, A Declaration of Sentiments, Works. V. 1, p. 664 apud OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 210.
[5] Cinco Artigos da Remonstrância. Wikipédia.org, acesso em 26/01/2015.
[6] Ibid.
[7] Oden, Thomas C. John Wesley´s Scriptural Christianity. Grand Rapids: Zondervan, 1994, p. 246 apud OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 219.
[8] Outler, Sermons, p. 2:179 apud COLLINS, Kenneth J. Teologia de John Wesley. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 97.
[9] Ibid.
[10] Ibid.
[11] Ibid., p. 99.
[12] Ibid.
[13] Ibid., p. 105.
[14] Ibid., p. 109.
[15] PIPER, John. Cinco Pontos: em direção a uma experiência mais profunda da graça de Deus. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2014, p. 17.
[16] Ibid., p. 18
[17] Ibid., p. 39.
[18] O arminianismo de cabeça possui uma ênfase no livre-arbítrio que está alicerçada no iluminismo e é mais tarde comumente encontrado nos círculos protestantes liberais [...]. Sua marca característica é uma antropologia otimista que nega a depravação total e a absoluta necessidade de graça sobrenatural para a salvação. É otimista acerca da habilidade de seres humanos autônomos em exercerem uma boa vontade para Deus e seus semelhantes sem a graça preveniente (capacitadora, auxiliadora) sobrenatural, ou seja, é pelagiano ou no mínimo semipelagiano. (OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 23.)
[19] Talvez a fraqueza mais séria do arminianismo contemporâneo seja a sua visão de pecado Com muita frequência, os arminianos restringem o problema do pecado para a questão da culpa, amplamente entendido como uma (mera) sujeição a um julgamento futuro. O evangelismo arminiano, portanto, frequentemente foca unicamente na oferta de perdão para evitar essa ameaça, apresentando seu convite com a presunção de que a platéia goza de liberdade da vontade, julgamento relativamente equilibrado, e uma abertura para considerar, de maneira imparcial, a mensagem do Evangelho. Por conseguinte, o fator mais importante para determinar o grau de sucesso no evangelismo é o poder do evangelista, que em lógica, persuasão ou charme pessoal. Tal pensamento arminiano contemporâneo surgiu nas gerações subseqüentes a Wesley, e em especial no metodismo estadunidense. (WALLS, Jerry; DONGELL. Por que não sou calvinista. São Paulo: Editora Reflexão, 2014, p. 64.
[20] SEATON, W. J. Os cinco pontos do calvinismo. 3.ed. São Paulo: PES, 2012, p.4-5.

IDENTIFICANDO OS FALSOS MESTRES COM A DIDAQUÊ



 

A Didaquê (∆ιδαχń em grego clássico), ou  Instrução  dos  Doze  Apóstolos,  é  uma  obra  do primeiro  século.  É constituída  apenas  por  dezesseis  pequenos  capítulos,  mas,  é  de  grande relevância histórica e teológica. Considera-se originário da Palestina ou da Síria, a data  em  que  foi  escrita,  divide os  estudiosos:  uns  colocam-na  antes  da  destruição  do templo (entre 60 a 70 D.C) e outros no período posterior (entre 70 e 90 DC.).
Quanto à autoria, acredita-se que não terão sido os doze apóstolos a escrever diretamente o texto, mas o nome terá sido dado por refletir os ensinamentos atribuídos aos mesmos.
Existem muitas menções de trechos da Didaquê em escritos da igreja antiga atestando assim a sua importância. Ela deve ter gozado de ampla circulação por algum tempo, sendo aceita pelo menos por uma parte da igreja como um livro digno de ser lido no culto divino. Por exemplo, Clemente de Alexandria a cita uma vez como Escritura.
A Didaquê pode ser dividida em duas partes :
A primeira: Os dois caminhos (1-6): Traz um código de moralidade cristã, apresentando as diferentes virtudes e vícios que constituem, respectivamente, o Caminho da Vida e o Caminho da Morte.
A segunda: Manual eclesiástico (7-16): É compêndio de regras que tratam de diversos aspectos da vida da igreja, tais como: batismo, jejum, eucaristia, missionários itinerantes, ministros locais, entre outros.
É exatamente na segunda parte, que foram consignadas orientações importantes a respeito dos aproveitadores da fé alheia, que porventura visitassem alguma comunidade eclesiástica. Estes aproveitadores, falsos mestres e profetas, eram identificados a partir da caracterização de suas ações e de seus ensinamentos.
Embora seja um documento do primeiro século, e mesmo correndo o risco de cometer um anacronismo, gostaria de aplicar algumas de suas orientações à igreja contemporânea.
Os mestres eram avaliados a partir da doutrina que pregavam, os seus ensinamentos deviam passar no clivo da ortodoxia, caso fossem reprovados, tanto a sua mensagem como a sua pessoa deviam ser sumariamente rejeitados:
        1 - Se, portanto, alguém chegar a vós com instruções conformes com tudo aquilo que acima é dito, recebei-o.
        2 - Mas, se aquele que ensina é perverso e expõe outras doutrinas para demolir, não lhe deis atenção; se, porém, ensina para aumentar a justiça e o conhecimento do Senhor, recebei-o como o Senhor.

Imagine o que seria dos pregadores de novidades teológicas espúrias, caso a igreja contemporânea observasse este item; ou mesmo do nínel da audiência dos programas televisivos evangélicos que despejam toneladas de lixo teológico nas salas de muitos cristãos desavisados, seria um santo remédio para a fragilidade doutrinária vivenciada pela igreja desta geração.
Os mensageiros eram avaliados também a partir de sua honestidade com o bem alheio, era observado se as solicitações visavam suprir as  suas necessidades, ou simplesmente almejavam explorar a igreja, as suas ações deviam passar no clivo da ganância:
        4 - Todo o apóstolo que vem a vós seja recebido como o Senhor.
        5 - Mas ele não deverá ficar mais que um dia, ou, se necessário, mais outro. Se ele, porém, permanecer três dias é um falso profeta.
        6 - Na sua partida, o apóstolo não leve nada, a não ser o pão necessário até a seguinte estação; se, porém, pedir dinheiro é falso profeta.
        12 - O que disser, sob inspiração: dá-me dinheiro, ou qualquer outra coisa, não o escuteis; se, porém, pedir para outros necessitados, então ninguém o julgue.


Imagine se a igreja contemporânea observasse as orientações da Didaquê, o que seria dos cantores e pregadores, estrelas do show business gospel, que cobram seus pesos em ouro para cantarem, pregarem ou testemunharem, requerem os melhores hotéis, tratamento vip, e esbanjam em seus deleites o dinheiro dos incautos. E como seria recepcionadas pela comunidade aquelas ditas ou malditas “revelações”, que afirmam que os membros da igreja devem meter a mão do bolso e depositarem o seu suado dinheirinho para serem abençoados. Observar tais orientações da Didaquê funcionaria como um remédio para a ganância e exploração alheia do rebanho do Senhor.
    Além dos parâmetros já citados, a Didaquê orientava a igreja a observar a vida do pregador, ou seja, se o mesmo vivia o que pregava. As suas ações deviam passar no clivo da coerência:
8 - Nem todo aquele que fala no espírito é profeta, a não ser aquele que vive como o Senhor. Na conduta de vida conhecereis, pois, o falso profeta e o (verdadeiro) profeta.
10 - Todo profeta que ensina a verdade sem praticá-la é falso profeta.
        
Imagine o que seria dos pregadores que conduzem a sua vida de forma desordenada, que se acham acima do bem e do mal, que a Lei do Senhor está simplesmente em suas bocas, contudo, não são refletidas em sua conduta. A observância da Didaquê ajudaria a sarar a frouxidão moral e incoerência testemunhal da igreja contemporânea.
Concluo esta reflexão, alertando para o fato que em nenhum momento estou querendo lançar sobre a Didaquê a autoridade de regra de fé e prática  que só cabe a Bíblia Sagrada. Contudo, almejo promover uma reflexão a respeito das preocupações e inquietações da igreja primitiva, preocupações estas, que foram abandonadas pela igreja contemporânea, que de tão moderna, esquece que a matéria prima da igreja enquanto instituição que atua neste mundo, ainda é o velho homem caído desde o Éden, e por isso, como bem ensinou os primeiros lideres da igreja, é importante observar a vida e ensinamentos de seus pretensos mestres, sujeitando-os aos clivos: da ortodoxia, da ganância  e da coerência.


Pr. Jonas Silva.

 
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